A importância dos operadores Marítimo-Turísticos na defesa dos golfinhos do Sado

Imagem: SadoArrábida

As empresas Marítimo-Turísticas (MT) de observação de golfinhos têm desenvolvido um papel fundamental no acompanhamento da população de golfinhos roazes residente no estuário do Sado. Em 1998, na altura em que começaram a aparecer os primeiros operadores MT, a população de golfinhos do Sado encontrava-se em declínio e em grande risco de extinção.

Os operadores alertavam para esta situação, quer junto dos visitantes que procuravam este destino turístico, quer junto das entidades responsáveis pela sua protecção. O papel destas empresas foi fundamental na educação ambiental e na sensibilização da comunidade para a urgente tomada de decisões e implementação de medidas de protecção e preservação desta comunidade.

O constante acompanhamento feito a esta população por parte das empresas MT tem assegurado, desde então, a monitorização dos roazes do Sado e contribuído para aprofundar os conhecimentos desta espécie.

Em 1999 surgiu, em Portugal, o Programa Nacional de Turismo de Natureza (ICNF) que serviu de modelo às empresas MT, o qual previa o desenvolvimento de um turismo sustentável e ecológico e em harmonia com a Natureza e os recursos que a sustentam. Este Programa previa também o regulamento das actividades de Turismo de Natureza nas áreas protegidas. Apesar dos esforços dos operadores para regulamentar a actividade de observação dos golfinhos do Sado, só em 2006 surgiu o Regulamento da Actividade de Observação de Cetáceos em Portugal Continental, ainda que o mesmo não fosse suficiente para o caso particular da população de roazes do Sado. As empresas de observação de golfinhos passaram então a ser obrigadas a cumprir um conjunto de regras, fazendo a observação destes animais de acordo com o código de conduta imposto, que tem como prioridade a salvaguarda e o bem-estar destes animais.

O turismo na região de Setúbal cresceu substancialmente nos últimos anos, tendo-se tornado num dos principais destinos de turismo de natureza em Portugal continental.

A aposta no turismo foi suportada por inúmeros investimentos, públicos e privados, grande parte dos quais cofinanciados pela comunidade europeia. A região passou então a ser reconhecida como um destino turístico, único, onde os hotéis, a restauração, o comércio, a pesca, a animação turística assumem um papel de grande importância. Enquanto o turismo em Portugal cresceu 10%, em Setúbal este crescimento atingiu os 14%; no último ano o número de dormidas em Setúbal aumentou para 310.000, segundo dados da Câmara Municipal.

A observação de golfinhos no estuário do Sado passou a ser um produto com uma enorme atractividade turística para a região. As empresas MT, conscientes da importância dos golfinhos para o desenvolvimento de um destino turístico assente no Turismo de Natureza, além das medidas legais adoptaram também entre si uma acção consertada de forma a zelar ainda mais pelo bem-estar destes animais.

Surpreendentemente, o ICNF tem apontado os operadores MT como sendo a principal ameaça à população de roazes do Sado, contudo é sabido que os Operadores de Turismo de Natureza têm um papel fundamental no desenvolvimento de actividades económicas compatíveis com a conservação da natureza, que criam empregos directos e indirectos e que permitem às populações que residem nas Áreas Protegidas e na sua envolvência optarem por soluções de emprego que tenham em conta a qualidade ambiental das zonas onde residem.

Lembramos que a interacção e cooperação entre os operadores MT e a comunidade científica e reguladora é fundamental para a conservação das espécies. É o caso do que acontece em diversos pontos no globo, em que as autoridades trabalham em sintonia com os operadores MT, como é disso exemplo o caso do projecto Marcet, entre a Macaronésia (Açores, Madeira e Canárias).

Os novos projectos para o estuário do Sado colocam em alerta os operadores MT que temem o desaparecimento deste grupo de golfinhos. Lamentavelmente o estudo de impacto ambiental (EIA) do novo projecto do Porto de Setúbal, referente às novas dragagens, responsabiliza explicitamente as MT como principal fonte de perturbação dos golfinhos (ver excerto abaixo), quando na verdade estas empresas têm assumido, pelo contrário, um papel activo na defesa dos golfinhos e do estuário do Sado.

Quanto ao equilíbrio do habitat dos golfinhos roazes, o EIA refere que “não é a movimentação / deslocação de navios de grande porte, que mantêm rotas bem definidas (nos canais de navegação) e que navegam a velocidades reduzidas, a principal fonte perturbadora da actividade dos golfinhos, e identifica o incremento da actividade de observação de golfinhos e a náutica de lazer, que muitas vezes não cumpre as regras básicas de boa conduta, como factores geradores de stress e perseguição desenfreada dos mesmos.”

Ao mesmo tempo, o EIA assume o impacto que poderá existir quando prevê que os roazes sejam afectados pelo ruído aquático de forma significativa.

Este projecto, ao incidir numa das áreas de distribuição do grupo de roazes residentes, poderá colocar em risco a sua permanência neste estuário. Sendo esta uma espécie emblemática para a região e protegida por diversos diplomas legais, não podemos deixar de fazer respeitar os estatutos de protecção e arriscar o seu desaparecimento. Segundo dados recolhidos pelos operadores MT:

  • O interior do estuário do Sado é uma área de extrema importância para a deslocação destes animais, entre o estuário e a costa marinha adjacente, bem como uma zona de elevada importância para a sua alimentação;
  • Nos anos 90 o número de roazes manteve uma média de 30 indivíduos. Em 2005 chegaram a contar-se apenas 22 roazes no grupo. A população mantinha-se em declínio, decorrente da emigração de elementos e da reduzida percentagem de sobrevivência das suas crias. Só em 2005 começou a registar-se um ligeiro aumento do número de roazes do Sado, tendo-se mantido estável a população nos últimos anos.

Ainda assim, não deixa de se tratar de uma pequena comunidade, por isso muito vulnerável, residente num estuário, casa pouco estimada. Os roazes não poderão sobreviver durante muito mais tempo perante tantas ameaças à sua existência. O homem, na verdade, é o principal responsável pela salvaguarda, ou não, do habitat dos golfinhos.

Citando Peter Neill, fundador e director do Observatório Mundial dos Oceanos, no que diz respeito à conservação dos oceanos e do planeta, “a maior ameaça que terão de enfrentar é a contínua aplicação de soluções do séc. XIX a problemas do séc. XXI.”

Estando Setúbal classificada como uma das baías mais belas do mundo. Sendo os golfinhos do Sado uma referência para Setúbal, que em conjunto com o Turismo de Portugal os utiliza como bandeira na sua promoção turística, seria lamentável perdermos esta identidade e este património único.

Setúbal, 29 de Novembro de 2018

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on Dez 20, 2018